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30.05.2014 12hs17

Leishmaniose e preconceito especista

Em Do Amor e Outros Demônios, Gabriel Garcia Márquez recria uma comunidade latino-americana de mais de 200 anos com riqueza de detalhes impressionante. Naquela época, cães com hidrofobia eram enforcados em praças públicas e seria uma vergonha para as pessoas que contraíssem o que seria “doença de cachorro”. O enforcamento sinalizaria a punição, a execração pública, a vingança, a culpa, o aviso. Bem possível que assim o fosse mesmo, porque depois de mais de dois séculos a situação não mudou em conceito. 

A posição especista de nossa espécie condena atualmente milhares de cães à morte por serem portadores de leishmaniose visceral. O Brasil, praticamente o único país do mundo a adotar a morte de cães como mecanismo de controle da doença, mostra com dados dos próprios órgãos de saúde pública que a morte destes milhares de animais não foi sequer eficiente em manter estáveis os números da doença que cresce. A mortandade é baseada em um decreto de 1963, e desnecessário citar o quanto a medicina evoluiu neste espaço de tempo. Acontece que a medicina não evoluiu para todos.

Atualmente, o tutor que desejar usufruir dos progressos da medicina, deve procurar auxílio jurídico se quiser preservar a vida do seu cão. O preconceito igualmente aflige quem contrair a “doença de cachorro”. Como não podemos encarar de frente o parasita ele é personificado no cão, ou seja, encara-se o cão como se encararia a própria doença. São o bode expiatório, sem querer ofender os bodes é claro.

De todas as espécies acometidas pela leishmaniose, o cão e o homem apresentam evolução e sintomas muito similares, como aumento do baço, fígado, gânglios e degeneração da medula óssea e dos rins. Os sinais são parecidos e o tratamento também. Os medicamentos que atuam no cão são os mesmos que atuam no humano. Os cães servem como modelo para pesquisa de drogas antes de serem usadas nas pessoas mas não podem desfrutar da utilização delas. É o preconceito especista escancarado que preconiza que as drogas devem ser preservadas para uso humano. Este processo é assistido por uma classe veterinária apática, mal informada na maioria das vezes e sem representação política. Basta lembrar um presidente de conselho de medicina veterinária defendendo a cultura das touradas em um congresso sobre meio ambiente.

Em uma ética mais ampla, deveríamos encarar, ao estabelecer metodologias de controle, que não são só as pessoas que sofrem com a doença, nossos companheiros caninos estão sofrendo tanto quanto nós e o sofrimento deles não deve ser relegado. A posição antropocêntrica prova o próprio veneno e entra no círculo vicioso da repetição de erros seculares.

O essencial controle populacional canino normalmente só é instituído após muita pressão e ainda é extremamente tímido frente à gravidade da situação de saúde pública (leia-se saúde humana?), enquanto o controle populacional humano ainda é um tabu de dimensões estratosféricas. A leishmaniose visceral no cão tem controle enquanto a incompetência da nossa espécie em promover um controle mais ético ainda é a tônica. Até quando? 

*Leonardo Maciel Andrade​ é ​graduado em medicina veterinária pela UFMG​, com aperfeiçoamento em clínica e cirurgia pela UFMG​. Mestre em clínica e cirurgia pela UFMG​. Especialista em animais silvestres​. Ex-parecerista dos comitês de ética da UFMG e PUC-MINAS​. Sócio proprietário do Animal Center Hospital Veterinário​,​ que recebe animais silvestres do tráfico e cativeiro clandestino​. Co-fundador da Associação Bichos Gerais​. Professor de clínica de animais silvestres da PUC-MINAS​.​

*Olhar Animal - www.olharanimal.net

Editado por: Josiane Bomfim